• Bruna Moraes

O que o seu filme de terror favorito diz sobre você?

Atualizado: 24 de Mai de 2020


É Halloween e nada mais simbólico do que esta data para falar sobre nossos medos. Alguns sentem repulsa sobre este tema, outros se sentem atraídos por ele. Tudo isso diz sobre como nós lidamos com as partes não tão boas de nós mesmos. É difícil de acreditar ou aceitar mas todos nós carregamos algo de "politicamente incorreto" dentro de nós. Mas não se assuste, até estes sentimentos fazem parte da nossa sobrevivência como espécie. Não acredita? Continue lendo.

Eu realmente tenho uma parte má dentro de mim?

Sim. Mas não é motivo para alarde. Todos nós temos algo de instintivo e animal dentro de nós. Vou te explicar como isso acontece me baseando em Freud. Ele diz que quando nascemos somos apenas um aglomerado de instintos, e neles se incluem a fome, e agressividade por exemplo. Se pensarmos no ser humano como uma espécie, podemos concluir que nascemos com algumas características para a sobrevivência na no mundo, assim como as borboletas, jacarés e samambaias. Todo organismo vivo tende a desenvolver defesas para conseguir sobreviver no mundo, obter satisfação enquanto está vivo e também passar seu componente genético adiante, ou seja, reproduzir.

Os instintos são herdados de nossa espécie, nós não temos muita escolha. E no caso da espécie humana, nosso desenvolvimento e contato com outros seres humanos durante a vida, faz com que conquistemos um comportamento mais civilizado, desse modo nós conseguimos nos relacionar com outras pessoas, construir nossas carreiras, círculos de amizade e família. Você pode ser a pessoa mais bacana do mundo, mas ainda sim vai haver algo de sombrio dentro de você.

A sua sombra

Segundo Jung, a sombra é uma parte de nós que carrega algo de imoral e violento. Vamos pensar novamente no bebê: conforme ele vai crescendo e se desenvolvendo, seus pais tendem a impedir que a criança cometa algo imprudente ou que se machuque. Veja a cena abaixo:

Assustadora certo? Digamos que isso é puro instinto ainda não trabalhado. No mínimo esses garotinhos receberam uma bronca dos pais, e quando a criança se depara com uma bronca (ou uma surra), encara a possibilidade de não receber amor dos pais . Ela tende a reprimir o comportamento pelo qual foi repreendida, pois sabe que não vai ser admirada por isso. E adivinhe para onde esses pensamentos, lembranças, imagens e comportamentos mal educados e fanfarrões vão? Eles vão fazer parte de sua sombra. Por que como já foi dito antes, nós somos um banco de dados ambulante, não há como apagar o que foi vivido. Tudo o que é vivido é guardado em alguma parte de nós e a nossa "má educação" também. Sendo assim, conforme vamos sendo educados, vamos desenvolvendo esta parte dentro de nós que "guarda" nossa agressividade, imperfeições, deficiências de caráter, crueldade, grosseria, fraqueza, etc. Se pergunte sobre o que seus pais reclamavam de você quando criança, isso pode ser uma pista sobre o que há na sua sombra.

Mas a sua sombra é de todo algo ruim? Definitivamente não. É ela quem dá características originais à você. É com ela que você se comunica quando se depara com emoções profundas, quando se conecta com sua criatividade, quando tem algum insight, quando arranja soluções para problemas... Enfim, a sombra é uma ferramenta para a sobrevivência.

Por quê as pessoas se interessam por filmes de terror? ( Ou não os suportam)

Sabendo que o "mal" existe de alguma forma em nós mesmos, às vezes não podemos suportar isso: sentimos vergonha de sermos imperfeitos. Neste caso, usamos um mecanismo psíquico muito comum que se chama Projeção. Nós projetamos o que há de pior em nós em um outro objeto. É por isso que às vezes brigamos muito com alguém que na verdade é muito parecido com a gente. É bem mais fácil colocar a culpa em alguém do que reconhecer nossos próprios fantasmas. Nesse sentido os filmes de terror podem ser uma tela onde nós colocamos os nossos próprios medos e angústias, por isso ele pode nos atrair ou repelir, dependendo de como nos relacionamos com a nossa sombra.

Outra possibilidade de mecanismo psíquico que pode acontecer se refere a um conceito de Freud: "relembrar, reviver e elaborar". Um filme de terror pode fazer com que você relembre memórias sobre seus próprios medos e angústias, os reviva em sua mente e os elabore de uma outra forma. Isso tudo acontece dentro de você em um nível inconsciente. De certa forma, entrar em contato com coisas assustadoras de uma forma controlada (como em um filme de terror) pode fazer com que seu mundo interno se "rearrume", e quem sabe se organize de alguma forma.

Se você se interessa por filmes de terror, é provável que esteja bem em contato com sua sombra.

Diga-me qual o seu filme favorito e te direi quem és

Como falei, até um filme de terror pode ser significativo quando o assunto é autoconhecimento. Aí vão algumas interpretações sobre o seu filme favorito:

Carrie, a estranha - A mãe malvada

Na psicanálise se fala muito sobre a "mãe simbiótica", a "mãe devoradora". Ela é simplesmente a mãe que não compartilha o filho, não o ajuda a conhecer o mundo, tem o desejo de se fundir à ele. No filme, a mãe de Carrie tem uma dificuldade em lidar com a própria sexualidade. Aliando isso à sua vontade de fusão com a filha faz com que ambas entrem em crise quando Carrie se torna adolescente e tem sua primeira menarca. A menarca, o sangue, simbolizam a chegada à maturidade sexual de Carrie, e isso faz com que a mãe veja que a filha, além de ser uma pessoa com vida e desenvolvimento biológico próprios, será objeto de desejo. E isso talvez tenha ativado na mãe uma série de sentimentos com relação à sexualidade, coisa que pra ela é um problema. O Exorcista também carrega muito deste simbolismo: talvez de um modo inconsciente a transição da infância para a adolescência seja algo aterrorizante pois é a fase em que nos deparamos com a nossa sombra, tanto na agressividade quanto na sexualidade.

Se pergunte: Se este filme te atrai por conta da sua própria história com seus pais, pelo período de transição da puberdade e adolescência difícil... Pode ser que a sexualidade seja um grande tema para você.

Anabelle - O engodo

É um tema bem comum na verdade. Este filme simboliza o medo por não saber as reais intenções de alguém, a grosso modo. Aqueles que já vivenciaram a maldade humana disfarçada de bons modos ou que se deixaram levar pela inocência em um primeiro momento, podem se identificar com o filme. Os exemplos concretos de lembranças de ser "passado para trás" podem ir desde o mais simples até o mais devastador: Ser enganado pelo colega de classe no jogo de Tazo ou ser realmente machucado por alguém mal intencionado. De certo modo, este filme pode nos fazer entrar em contato com aquela época da infância onde aprendemos a diferenciar as coisas boas, das más, é uma época em que sofremos por descobrir que as coisas não são bem um mar de rosas.

Se pergunte: Sofreu por algum momento de inocência? Tem dificuldade de julgar as pessoas como perigosas ou más? Houveram pessoas significativas que eram instáveis?

Pode ser sinal que você é gato escaldado.

O iluminado - O pai malvado

Existem muitas teorias sobre o filme, mas o filme de um modo geral fala sobre o pai que ameaça. Quando o pai não é sinônimo de proteção, podemos vivenciar a destruição que ele pode causar na vida da família. Este medo pode ser experimentados em famílias onde o pai é adicto à alguma substância, violento ou tem alguma questão psicológica mais grave. Este também pode nos fazer lembrar de épocas em que vivemos um desamparo, o que não é incomum.

Se pergunte se: Houveram fases da vida onde se sentiu desamparado, sem proteção ou à mercê de situações destrutivas. Essas vivências podem marcar uma pessoa.

Atividade Paranormal - A solidão

Existem várias sequelas, mas acho que a idéia principal é a de que há uma presença malígna na casa e ela não tem corpo ou forma. Mesmo assim essa presença tem o poder de causar terror. Deste modo a entidade ou fantasma pode simbolizar o que não existe de fato, a fantasia. Quando se é criança e tenta achar explicações para o mundo adulto que lhe rodeia, podemos acabar fantasiando cenários catastróficos. Ou então a solidão intensa faz com que nos relacionemos com "fantasmas", com o vazio, com o "quase nada".

Se pergunte se: Sempre muito solitário? Dificuldade em se relacionar com as pessoas? A solidão é uma grande via para a fantasia.

O chamado - A culpa

Este tipo de enredo parece ser muito comum no Japão: o acerto de contas. Nos filmes japoneses os fantasmas voltam com frequência para uma vingança. De um ponto de vista moral, o culpado deve pagar pelo que fez e isso pode ter alguma relação com a sua história, se este é seu filme favorito.

Se pergunte se: Se sente culpado? Se sente injustiçado? Nunca é tarde para reparar as coisas!

E aí, fez sentido? Comente e dê sua opinião!

#blogdaterapia

54 visualizações0 comentário