• Bruna Moraes

[A Forma da Água] O resgate do monstro interno

Atualizado: 4 de Jun de 2020


O filme de Guillermo del Toro retrata a saga heroica da personagem que tenta resgatar seu amor. É possível se identificar com a história, sendo que, em algum momento concreto da vida foi preciso socorrer, resgatar ou proteger alguém significativo para nós. É nos pequenos episódios da vida que se encontram os grandes atos heroicos. Mas o que me chama atenção na história do filme "A Forma da Água" é que existem personagens que estão muito consolidados na história da humanidade, ou seja, figuras que habitam a nossa mente sem mesmo sabermos o por quê estão lá. São estas figuras que são chamadas de Arquétipos por Jung. Figuras formadas pela longa história da nossa espécie. E neste filme há dois destes arquétipos: a heroína e a besta. Imagine você, 200.000 anos só de homo sapiens! E esses 200.000 anos são formados de incontáveis vidas que repetiram sempre mesmas atitudes, como por exemplo ser corajoso, destemido e audacioso como um herói. Não importa em que medida e em que situação. O homem de 200.000 anos atrás tinha que ser corajoso para se alimentar tanto quanto o homem contemporâneo. O mesmo acontece com o arquétipo da besta. Nesta longa história do homo sapiens, cada ser humano que já viveu se deparou com uma figura animalesca, bruta e monstruosa. Fora ou dentro de si mesmo.

O filme retrata, então, a história da heroína que resgata o monstro. Ela pode ver a humanidade quando outros não veem. Vamos pensar o seguinte: de um ponto de vista psicológico individual, esta história retrata um acontecimento no mundo interno de uma mulher. A heroína é uma parte dela e o monstro também. Pode não parecer, mas na trajetória feminina é comum a dificuldade em lidar com figuras masculinas. O pai ausente, o amigo hostil, um parceiro cruel, um chefe desumano. A vida da mulher também envolve esta eterna negociação com figuras masculinas, sejam boas ou más. Estas referências masculinas vividas pela mulher são guardadas em seu "banco de dados interno" ao qual chamamos de psique. Jung diz que durante a vida estas experiências especificas vão formando uma instância na psique da mulher que é chamada de Ânimus. O Ânimus então é uma "pastinha" dentro do "sistema" inconsciente que guarda as referências do que é um homem. Além do nosso inconsciente individual (lugar onde guardamos experiências da nossa própria vida), temos também o inconsciente coletivo (lugar onde as figuras antigas compartilhadas por todos nós habitam) Eliza Esposito, a heroína do filme, se depara com uma dessas figuras: o homem-monstro que ocupa as profundezas de seu ser, o inconsciente coletivo. Eliza vê um potencial nesta figura e define como objetivo o seu resgate. E o que significa este resgate? Podemos pensar que o monstro está fora de seu habitat e portanto pode se tornar perigoso, violento e também vítima das circunstâncias. Do mesmo modo, quando o Ânimus ocupa espaços do mundo interno da mulher que não lhe cabem, as consequências podem não ser tão boas. Há histórias de mulheres que são tomadas pelo seu ânimos: mulheres extremamente determinadas, com sede de poder e vingança, cruéis (quando se associam à ele) ou então passivas, permissivas e apáticas (quando o obedecem cegamente). Isto acontece quando elas são dominadas por seu Ânimus mais arcaico, elas deixam a porta do seu mundo interno aberta para eles e os deixam a ocupar como quiserem, ao invés de domá-los e os conter no lugar que lhes cabe: o inconsciente. Esta é a saga de Eliza, uma mulher pacata, que ao invés de obedecer ou se associar ao seu Ânimus, se apaixona por este seu animal interior. A partir daí ela sabe que tem que devolvê-lo ao lugar onde ele pertence. E é claro, o fundo das águas representa (em muitas histórias) o inconsciente. E Eliza consegue devolver seu Ânimus arcaico ao lugar que ele pertence. Este foi o grande épico em sua vida e é o épico de mulheres que conseguem entrar em termos com o seu Ânimus. O monstro se torna seu aliado, seu parceiro, seu amor. Digamos que o Ânimus domado em uma mulher pode lhe dar forças para ser agressiva e determinada quando preciso, sem lhe tomar a capacidade de criar vínculos significativos, uma qualidade feminina.

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