• Bruna Moraes

Síndrome do pânico: o que você ainda não sabe e pode te ajudar

Atualizado: 24 de Mai de 2020


É cada vez mais comum em um consultório histórias sobre crises de ansiedade desesperadora onde o paciente é tomado por um medo irracional e agudo. O corpo fica em um estado de dormência, parece que se está fora da realidade e não há mais o controle sobre si mesmo.

O transtorno do pânico (ou a síndrome do pânico) parece ser algo misterioso e que pode apenas ser amenizado por remédios. Neste artigo, exponho uma visão psicológica sobre esta condição mental e proponho possíveis soluções. De onde as crises vem? Por que existem pessoas que nunca as viveciaram? Como solucionar esse problema? Vamos começar pelo início.

Uma ajudinha de Darwin

Para poder explicar o por quê um ataque de pânico acontece, temos que voltar no tempo. Imagine a espécie humana há 13 milhões de anos atrás quando ainda era muito primitiva. Vivíamos basicamente como animais selvagens. A gestação da fêmea durava 11 meses, o que significa que o bebê primitivo tinha mais tempo para formar defesas biológicas para viver no mundo. Quando nascia já podia andar e se alimentar sozinho, como por exemplo o que acontece com um potro: pouco momentos depois que fêmea do cavalo dá a luz, seu filhote já começa a se equilibrar sobre as quatro patas, andar e pastar sozinho. Muito diferente do que acontece com a cria da espécie humana hoje em dia.

Esta gestação de 11 meses só acontecia por conta da configuração física da fêmea primitiva: ela andava sobre quatro patas e sua anca tinha uma abertura bem maior para dar passagem à um recém nascido de tamanho igualmente maior e mais preparado fisicamente para viver na natureza sem uma ajuda tão intensa da mãe.

Quando a espécie humana vai começando a caminhar sobre as duas pernas, a anca da fêmea vai se transformando, ficando mais estreita. O recém nascido deve ter um tamanho cada vez menor para conseguir sair por aquela passagem pequena. Desse modo, a gestação começa a ter um tempo menor, o bebê nasce "antes da hora", sem muitas capacidades físicas para se virar sozinho. Hoje em dia, o bebê finaliza a sua formação fora da barriga da mãe, e é por isso que ele necessita de cuidados muito mais intensivos, tendo que ser assistido em basicamente tudo: a mãe o estimula mamar, o segura da maneira certa, o aquece, etc.

A desvantagem de ter saído da barriga antes da hora, antes de ter se formado por completo, é a de experimentar pela primeira vez que se é frágil diante do mundo e não se consegue viver sem os cuidados da mãe. D. W. Winnicott, psicanalista e pediatra famoso, nomeia essa primeira experiência de medo que o bebê vivência como "medo da desintegração", e esta memória do medo, que alguns de nós experimenta de uma forma muito marcante na primeira infância, será reprimida no inconsciente durante anos e poderá ser revivida com a ajuda de um gatilho. Esse medo é muito irracional, difuso e inconsciente, chamado hoje pela psiquiatria de episódio de pânico.

O início de tudo é na primeira infância

Os potros tem medo? Sim, mas é um medo programado pela espécie, do tipo: as onças são perigosas, andar por aí sozinho sem o meu bando é arriscado...

O medo da desintegração no bebê é um medo muito mais profundo. É se deparar com a própria impotência diante da morte.

É, eu sei que pensar a experiência de um bebê deste modo pode ser incômodo. Mas como todos os seres da espécie humana, temos sentimentos complexos que podem ajudar ou atrapalhar o nosso desenvolvimento como pessoa. E se soubermos como lidar com estes sentimentos que transformam nossa vida em um caos, eles acabam se transformando em uma ferramenta poderosa para o nosso bem estar. Falo disso depois.

Voltando ao assunto. Vimos que ao decorrer da história da nossa espécie, ficou mais fácil experimentar emoções que os nossos antepassados poderiam nunca ter experimentado antes. Isso não quer dizer que, hoje em dia, todos nós vamos experimentar este "medo da desintegração" ou ter um ataque de pânico. Se lembra que o papel da mãe atual é o de "terminar de gestar" seu bebê fora da barriga? Quando isso é feito de uma forma satisfatória os bebês não experimentam o "medo da desintegração", ou seja, não vivenciam essa primeira experiência aterrorizante que na idade adulta pode se transformar em uma crise de pânico. Neste caso, os cuidados da mãe proporcionam um ambiente seguro para que o bebê sinta-se amparado e saiba que pode contar sempre com ele.

Mas quando há uma falha ambiental na qual o bebê sinta uma ameaça real contra sua existência, a maternagem não foi "suficientemente boa" como diz D. W. Winnicott. Isso quer dizer que o amparo da mãe não foi o bastante para fazer com que o bebê não sentisse esse "medo da desintegração".

Quando esse desamparo é sentido de um modo muito intenso pelo bebê, ele vai se percebendo como algo frágil, "quebradiço". Como se a possibilidade de parar de existir fosse algo muito real. Neste caso a maternagem não foi "suficientemente boa", e ela pode acontecer de duas formas: Ou os cuidados foram demasiados fazendo com que o bebê recebesse a mensagem de que ele é impotente sem a mãe; Ou houve falta de cuidado, fazendo com que o bebê se sentisse insuficiente para enfrentar o mundo.

A maternagem "suficientemente boa" está no caminho do meio, onde o bebê consegue se sentir protegido e ao longo do tempo vai criando uma segurança em si mesmo, sentindo que consegue se virar sozinho. Esse bebê irá se transformar em um adulto que se sente mais seguro e confortável com o mundo que o rodeia.

Ei...não vamos sair por aí culpando as nossas mães pela qualidade da maternagem que elas ofereceram. Elas também são humanas e tiveram as próprias histórias infantis. Vamos pensar no que podemos fazer por nós hoje...

Você não é mais um bebê

Por mais que a sua realidade infantil pôde ter sido traumática um dia, a vida seguiu seu curso e hoje você está aí sentado na frente do seu computador lendo este texto. Você conseguiu passar por etapas da sua vida até chegar nesta em que você se encontra hoje. Gimme five!

Você pode estar pensando: "e daí que eu consegui chegar à idade adulta?". Pois é, a vida na terra não é, e nunca foi garantida. Por mais que vivamos em tempos um pouco mais seguros do que os medievais, por exemplo, ainda temos que garanti-la.

Freud dizia que a vida do ser humano é uma eterna luta na direção da sobrevivência: a natureza é muito mais poderosa do que nós e pode cessar a nossa existência em poucos segundos; estamos à mercê dos males do nosso corpo e podemos adoecer e finalmente, as interações humanas não são fáceis e podem, com certa facilidade, causar conflitos graves. Então se permita dar um tapinha nas suas costas.

Pensando deste modo, você conseguiu organizar de uma forma razoável as suas defesas para com o mundo. Saiu da posição de impotência que viveu quando bebê e conseguiu aprender a se protejer e se amparar quando a vida pede. Os ataques de pânico podem ser facilmente traduzidos como uma inaptidão para lidar com determinado objeto ou situação, mas na realidade eles são reações pontuais que acontecem quando você está diante de algo que remete ao seu trauma primário.

Transtorno do Pânico, como solucionar

Em uma visão psicoterapêutica, os ataques de pânico são indícios de que algo ainda não se resolveu na sua psique, ou seja, no seu mundo interno. E como resolver?

Enfrentar, acreditar, repetir!

É um conceito que é aplicado na psicoterapia cognitivo comportamental e tem muito valor. Para que o objeto ou situação gatilho não seja visto como algo tão aversivo, é preciso entrar em contato com ele, conhecê-lo melhor e reconhecer que você consegue lidar com ele. Tudo isso é feito em pequenas doses, pouco a pouco se dessensibilizando, se acostumando com o gatilho. Quando o gatilho é estar sozinho, talvez você tenha que pouco a pouco ir incluindo atividades na sua agenda nas quais possa curtir sua própria companhia. Se é ir viajar, planeje com antecedência meios para não se sentir tão vulnerável. A construção da crença de que você pode e consegue se defender é um conceito muito importante para quem sofre com a Transtorno do Pânico.

Construir certezas

Quando se é um bebê, não há certeza sobre nada. O mundo é assustadoramente novo. Conforme se entra em contato com o que te causa medo (de forma controlada), se adquire experiência, entendimento e conhecimento de forma que a situação ou objeto não são mais tão aversivos quanto um dia foram. Alfred Hitchcock, diretor de filmes de terror, dizia: "Não há nada mais assustador do que uma porta fechada".

É também importante valorizar as certezas que você já possui, talvez sobre os elementos mais simples da vida. Assim você pode se dar conta de que algumas coisas são simplesmente estáveis e seguras: uma família (adquirida ou não) que oferece suporte; capacidades e habilidades que dão base para sua sobrevivência, conquistas materiais ou emocionais, etc. Se pergunte sobre o que você tem certeza na sua vida. Isso poderá lhe dar um senso de segurança interno maior. Quando a onda passar, você tem sim onde se segurar.

Defender-se da falha ambiental

Há situações em que o gatilho ou objeto que provoca um ataque de pânico não são identificados. Isso acontece por que a relação mental que se faz no momento da crise é inconsciente. Algo no ambiente ou em você mesmo pode despertar este conteúdo reprimido, a "memória" da falha ambiental que um dia você viveu na sua primeira infância. Neste caso, uma psicoterapia com base psicanalítica pode cair bem. Nela, você e o psicólogo vão explorar as raízes deste gatilho para entendê-lo e resolvê-lo da melhor forma. A própria terapia é algo que recria um ambiente seguro, estável e confiável.

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