• Bruna Moraes

[Corpo Fechado] Uma análise psicológica dos personagens

Atualizado: 4 de Jun de 2020


E se os personagens David Dunn e Elijah Price se deitassem em um divã, qual seria a hipótese diagnóstica de um psicanalista?

Os dois personagens do filme "Corpo Fechado" criado por M. Night Shyamalan são arquétipos do que nós mesmos podemos ser. Representam "modos de ser" que encontramos nas pessoas que nos rodeiam e até mesmo em nós.

O filme mostra dois homens com histórias de vida comuns e ainda sim muito particulares. Eles reconhecem suas forças e fragilidades quando se cruzam. Elijah Price, portador de uma doença congênita que provoca fragilidade em seus ossos , se atrai pela curiosa história de um homem que é "inquebrável". David Dunn, foi capaz de escapar ileso de dois acidentes que poderiam levar qualquer um à um desfecho fatal. Ao passo que Price sempre se protegeu ao longo da vida para que seus ossos não se quebrassem. Quando se encontram, Elijah Price conta à David Dunn de sua teoria:

"Por mais irreal que pareça, estamos conectados, você e eu. Estamos na mesma curva, apenas em extremos opostos."

E estão mesmo conectados. Os aspectos que ambos possuem são bem incomuns. O corpo de David Dunn é extremamente resistente e o de Elijah Price extremamente frágil.

Mas se estivessem deitados em um divã, estes aspectos que os personagens apresentam (quebrável e inquebrável) seriam interpretados de um outro modo: como símbolos. O psicanalista John Bowlby é famoso pela Teoria do Apego. Sua teoria explica sobre os estilos de vínculo humanos, ou seja, os vários modos que adotamos para nos relacionar com os outros.

E o que isso tem a ver com resistencia e fragilidade? ...Se pensarmos que o fato de ser inquebrável ou quebrável é algo que só se pode ser percebido ou descoberto quando estamos em relação com o outro, podemos deduzir que estes são atributos que falam sobre um estilo próprio de se vincular. Assim, tomando como base a história do filme, ser inquebrável fala de uma forte recusa ao que vem "de fora", enquanto ser quebrável, fala de um extremo sentimento de desamparo e vulnerabilidade diante do mundo.

A pessoa que tem capacidade de sentir mas se recusa - Apego Evitante

Uma cena marcante do filme mostra o personagem David Dunn se permitindo tocar nas pessoas. Nesta cena ele se deixa utilizar um de seus "super poderes", sentir e vivenciar o que as outras pessoas sentem e vivenciam, coisa que se conhece na psicologia como empatia. A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de o entender. Sendo assim, podemos dizer que Dunn é uma pessoa capaz de se conectar à outras pessoas, mas de uma forma deliberada (ou inconsciente?) escolhe não o fazer. Por que será?

John Bowlby explica que o apego evitante pode decorrer de um trauma ou condicionamento. Quando a pessoa experimenta relações difíceis, emocionalmente custosas ou que afetam a sua integridade, tendem a se afastar delas e generalizar todas as experiências com as pessoas como de certa forma invasivas. No filme, David Dunn é exibido como uma pessoa distante e não está disposto à se envolver emocionalmente. E o seu poder de ser inquebrável também é um símbolo disso: é tão forte que não deixa o mundo lhe invadir.

A pessoa que não tem a capacidade de sentir - Sociopatia

Enquanto David Dunn se afasta do contato, Elijah Price é indiferente à ele. Por mais que Dunn evite as relações e emoções humanas, ele as valoriza. Já Price só consegue dar certo valor aos vínculos que pertencem à sua fantasia de poder. Desvaloriza todas as demais vidas e com facilidade as destrói. A sociopatia é um diagnóstico raro, segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa ele representa 4% da população mundial.

A sociopatia de Price pode ser explicada por um extremo auto envolvimento, um narcisismo patológico. Por conta de sua condição frágil e impotente diante do mundo, Price faz de sua vida uma busca por sentido da própria existência, e assim encontra Dunn, a pessoa que dará sentido à toda a sua teoria. Na sua perspectiva delirante, Dunn é o homem que prova que a sua existência não é vã: se Dunn é especial, Price também é.

"Agora que eu sei quem você é, eu sei quem eu sou" - Elijah Price

Isso é realmente um fato. Todos nós entendemos mais de quem nós somos quando estamos em contato e entendemos mais o outro. A maneira mais eficaz de nos descobrirmos é nos relacionando. Qualquer tipo de vínculo na nossa vida nos dá dados para dizer de quem nós somos. Talvez a grande sacada para tornar os nossos vínculos mais saudáveis e satisfatórios seja: Não conte totalmente com a opinião do outro e não conte totalmente com a sua própria opinião. Se permita experimentar uma mistura de como o mundo te vê e de como você vê a si mesmo. A conclusão que resultará desses dois pontos de vista será sua, única... especial.

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Bruna Moraes
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